sábado, 12 de março de 2011

FIOS BRANCOS


Meus poucos fios brancos entre o cabelo, traduzem minha demanda e um pouco das preocupações que habitam minha mente.
Entretanto, a pouca idade não poderia evidenciar tais efeitos da natureza, mas como a natureza é considerada uma mãe, ela sabe o que faz. Certo?
Certa vez ouvi um menino questionar seu pai sobre os seus cabelos brancos, o pai, em sua simplicidade começa a descrever o seu dia a dia para o filho.
Descreveu minuciosamente como era seu trabalho, o horário que acordara todas as manhãs e o que fazia durante o dia, a noite era para estudos e em algumas delas, trabalho.
Lembro da expressão do menino, atento a cada palavra que seu pai proferia, entre uma expressão e outra o menino mostrava-se confuso, seu pai falava e falava, mas ainda não estava claro como seus cabelos branqueavam.
Neste meio tempo toca o telefone do pai do garoto, ele atende com um tom ríspido na voz, um pouco contrariado em sua fala.
Devido ao que pude escutar da conversa, percebi que era uma ligação do seu trabalho. Haviam lhe pedido para ir mais cedo para a labuta, pois um colega sentiu-se mal e precisou ficar em observação no hospital local, o pai do garoto, visivelmente contrariado, pois havia saído tarde no dia anterior e hoje que poderia aproveitar o dia de folga com o filho, teria que adiar tudo e ir mais cedo para o trabalho.
Sabemos que esta é uma realidade constante no cotidiano profissional, se um profissional faltar, outro precisa suprir esta falta, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, não é assim?
O pai então pede desculpas ao filho e lhe explica que precisará ir embora para casa e posteriormente para o trabalho, o menino, que aparentava ter entre sete e nove anos, apenas sacode a cabeça em sinal de aprovação e responde um sincero, “tudo bem”.
Com o desenrolar da história eu começo a gostar do desfecho e acabo subindo no mesmo ônibus que eles. Sentei-me no banco que ficava atrás ao que eles estavam.
De repente vejo que o pai liga para alguém e avisa que voltará mais cedo para casa, pois o convocaram para ir para o trabalho. Pelo tom da conversa parecia ser a esposa.
Em seguida ao telefonema, o pai vira-se ao filho e desfere a seguinte frase.
“É por isso, Pedro, é por isso que nossos cabelos ficam brancos, por causa de telefonemas como este”.
O menino fica meio espantado com a resposta do pai, mas mesmo assim agradece com um, “ah, bom.”
Quando eu pensava que estaria sanada a dúvida do menino, o pai começa a lhe dizer o real motivo do passeio.
“Filho, este passeio era pra lhe comprar um telefone celular, sua mãe e eu achamos que você comportou-se bem e foi muito dedicado aos estudos este ano, queríamos lhe recompensar por este esforço. Achamos que gostaria de ganhar um telefone, já que a maioria de seus colegas possui um”.
A resposta do garoto. “Pai, não preciso de celular. Quero manter meus cabelos assim, pretos”.
Aprendi neste dia, que por mais difícil que uma pergunta seja. Não posso, jamais, distorcer sua resposta. O que eu for ensinar pode sair da minha cabeça, mas nunca sairá da cabeça daquele que absorver esta informação.

@JuniorDihl


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