domingo, 29 de maio de 2011

A caixa preta


Em meio à apreensão relacionada a boatos sobre o fim do mundo, na chegada do ano 2000, uma escola decidiu usar este momento para mexer com a imaginação de seus alunos.
A meta era colocar seus desejos, medos e anseios dentro de uma urna que seria aberta dez anos à frente, caso o mundo não extinguisse, claro.
Passei minha infância e por que não, boa parte da minha vida dentre os muros desta instituição, nostalgia paira sobre mim neste momento.
As várias pessoas que ali depositaram suas expectativas em forma de objetos queriam certamente, reavê-los, na certeza de que o mundo não acabara. Lembro de ter anexado junto à urna, uma fita k7, de uma banda de rock nacional, nela depositei meus sonhos e monstros, que viviam lado a lado em função de toda a mídia que se fazia para o assunto em questão.
O que aconteceu após o sepultamento destes objetos foi o avesso ao que todos imaginavam, muita água rolou nos anos 2000 e a maioria das pessoas que ali depositaram a esperança de um futuro, acabaram por esquecer a tal urna. Foi o meu caso.
Dez anos passaram-se e o mundo não acabou, ainda bem, embora algumas pessoas terem a convicção de que está acabando aos poucos e para muitos de meus amigos ter chegado ao fim, a vida, o mundo não acabou.
Só fui me dar conta de que os anos passaram, quando recebi o convite para a solenidade de abertura desta urna. Já não lembrava quais eram meus pensamentos e objetivos no primeiro ano, no entanto, comecei a recordar de todas aquelas pessoas que fizeram parte deste processo, as lágrimas deslizavam sobre o rosto, ao mesmo tempo em que se perdiam no sorriso exposto nos lábios. Um turbilhão de sentimentos naquele momento tomava conta de mim, alegria, saudade, tristeza e ansiedade.
Estava clara a sensação de felicidade por ter a oportunidade de encontrar-me comigo mesmo, dez anos mais jovem.
Amigos que já não via, professores e a própria escola que já não adentrava há algum tempo. O que mais me dava prazer durante este período era poder passar a meus semelhantes a experiência fantástica que eu estava vivendo.
Entre outras coisas, este momento me fez repensar algumas atitudes e rever minhas prioridades, pois não me dava conta de que já respondia pelos meus atos e os de meu filho, de que dali a pouco precisaria voltar correndo para o trabalho e ter de aceitar que o tempo passou e eu quase não vi.
Quando abriram a urna vi fotos de artistas, avaliações escolares, boletins e cartas de amor, tudo depositado pelos alunos da época, o mais instigante é que todos os desejos e sonhos que ali investiram não passaram de fantasias, nenhum de meus colegas casaram-se, entre si, os que desejavam a fama e o sucesso, não o alçaram, ainda. Entre outras relíquias que ali foram esquecidas, digo esquecidas, pois ninguém se recordava do que havia posto na urna, a simbologia deste feito nos trouxe uma alegria em comum, já descrevi alguns desejos individuais, mas o desejo principal e coletivo se realizou, afinal o mundo não acabou.
Sugiro que você também abra a sua “urna” e descubra aquilo que te dá prazer, reaver as coisas que você deixou de fazer por falta de tempo, as pessoas que já não vê, do contrário o seu mundo estará chegando ao fim.




@JuniorDihl

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Dona Rosa


Enquanto a chuva molha por inteiro o pára-brisa, vem à memória parte de minha infância.
Em uma manhã de domingo, daquelas ensolaradas, resolvi acordar cedo e descobrir quem era o “pássaro” que cantarolava junto a minha janela.
Toda manhã ouvia aqueles assovios que entoavam alguns hinos evangélicos, a artista em questão era minha avó paterna, Dona Rosa.
Por muitas vezes, ao acordar, ficava a ouvir tais cânticos e não me dava conta de quem os proferia, o fato de minha avó ser analfabeta me deixava intrigado, pois, como uma pessoa que não conhecia a escrita poderia saber cantar? Diga-se de passagem, cantar bem.
Claro que minha ingenuidade contribuía consideravelmente para tal dúvida.
Lembro que minha surpresa foi tamanha ao descobrir que era a Dona Rosa que, retratando sua fé em tons musicais, alegrava todas as minhas manhãs.
Alguns longos anos mais tarde, já sem minha avó em vida, eis que começo a reviver estas manhãs e lembro-me de nunca ter dito nada a ela, sobre o fato.
Queria ao menos, alguns poucos segundos junto a ela, para assim poder dizer que àquelas vibrações sonoras faziam minhas manhãs bem melhores, mas não posso, ninguém pode.
Hoje minhas manhãs são regadas a barulhos de uma cidade que já não dorme, de cachorros a latir na rua, de buzinas dos mais impacientes motoristas e das indústrias que habitam meu quintal. Este não é um privilégio só meu, mas sim de toda a vizinhança.
Queria também, que meu filho, pudesse mais tarde, se lembrar de algumas manhãs como as que eu tive na idade dele. A questão é; o que estou fazendo para que isso ocorra? Nada.
Não lembro, de algum dia ter o acordado com uma canção suave, com um simples assovio ou até mesmo com suas músicas preferidas. Muito por minha extensa carga horária de trabalho, muito por eu não ter tempo de ficar em casa esperando-o despertar, muito por outros objetivos cegarem-me.
Na conclusão de que não posso reaver estes segundos junto à minha avó, cada vez mais tenho a certeza de que preciso fazer isso a meu filho, não posso mais postergar esta demonstração de afeto, antes que seja tarde e eu acabe acordando com suas cantorias e brincadeiras. O que me deixaria arrependido por não ter tido este tempo.
Dona Rosa, mesmo que indiretamente, atingia-me positivamente com sua bela cantoria, a ela deixo meu muito obrigado por ter feito a diferença nas minhas manhãs e na minha vida.
Com todo o estudo que tenho pela frente, seria motivo de orgulho se conseguisse passar a meu filho, que seja, a metade dos conceitos e ensinamentos que minha avó me transmitiu
Tendo frequentado apenas uma única sala de aula, a vida.

@JuniorDihl

domingo, 8 de maio de 2011

Essência


Emudecer as palavras e enaltecer os gestos.
Após o beijo decidir qual será o próximo passo.
Envolto a um laço, num embrulho de roupas,
Das fantasias, as loucas, sem ritmo e em descompasso.
Abnegados de qualquer pudor e preconceito.
Trazendo no peito, apenas, do sentimento, a essência.
Imensurável atração nos une, neste instante,
Ficção e realidade se confundem na mesma frequência.
Entrelaçados por um campo invisível e indestrutível,
Magnetismo e audácia, perspicácia eminente.
Encontramos nos braços, segurança, conforto e carinho.
Deixemos a discórdia ao futuro e nos valemos do presente.
O tempo que nos cerca não atrapalha, mas impõe regras.
Fervorosamente as mesmas nos instigam a burlá-las.
A chama solta no inconsciente atrai a libido,
Incandesce as almas e faz os corpos ter de buscá-las.
O sentimento que resplandece para todos à sua volta.
Propaga o amor e estima a união destes corpos, em prazer.
Pertencentes um ao outro, desde o inicio, desde sempre.
Saciados e com um sorriso estampado, só tem a agradecer.


@JuniorDihl

domingo, 1 de maio de 2011

Puro


Uma lembrança, um sorriso, uma data.
O improviso de um dia que retrata,
A primeira vez, o ponto de partida.
O toque suave junto à pele macia,
Um vinho suave para o frio que fazia,
Unindo duas historias em uma só vida.
Ansiedade, nervosismo e calor,
Desejo, fogo, atração e amor,
Uma tarde, duas noites, para sempre.
A pouca idade e o pensamento a mil,
Felicidade em pensamentos mil,
A verdade nua e crua frente a frente.
Uma rosa, branca rosa sobre a cama,
Entre palavras diz que me ama,
Em gemidos exala o amor e o prazer.
Num perfume doce e instigante,
Que me faz lembrar cada instante,
Do amor puro que ali veio a nascer.


@JuniorDihl