quarta-feira, 11 de maio de 2011

Dona Rosa


Enquanto a chuva molha por inteiro o pára-brisa, vem à memória parte de minha infância.
Em uma manhã de domingo, daquelas ensolaradas, resolvi acordar cedo e descobrir quem era o “pássaro” que cantarolava junto a minha janela.
Toda manhã ouvia aqueles assovios que entoavam alguns hinos evangélicos, a artista em questão era minha avó paterna, Dona Rosa.
Por muitas vezes, ao acordar, ficava a ouvir tais cânticos e não me dava conta de quem os proferia, o fato de minha avó ser analfabeta me deixava intrigado, pois, como uma pessoa que não conhecia a escrita poderia saber cantar? Diga-se de passagem, cantar bem.
Claro que minha ingenuidade contribuía consideravelmente para tal dúvida.
Lembro que minha surpresa foi tamanha ao descobrir que era a Dona Rosa que, retratando sua fé em tons musicais, alegrava todas as minhas manhãs.
Alguns longos anos mais tarde, já sem minha avó em vida, eis que começo a reviver estas manhãs e lembro-me de nunca ter dito nada a ela, sobre o fato.
Queria ao menos, alguns poucos segundos junto a ela, para assim poder dizer que àquelas vibrações sonoras faziam minhas manhãs bem melhores, mas não posso, ninguém pode.
Hoje minhas manhãs são regadas a barulhos de uma cidade que já não dorme, de cachorros a latir na rua, de buzinas dos mais impacientes motoristas e das indústrias que habitam meu quintal. Este não é um privilégio só meu, mas sim de toda a vizinhança.
Queria também, que meu filho, pudesse mais tarde, se lembrar de algumas manhãs como as que eu tive na idade dele. A questão é; o que estou fazendo para que isso ocorra? Nada.
Não lembro, de algum dia ter o acordado com uma canção suave, com um simples assovio ou até mesmo com suas músicas preferidas. Muito por minha extensa carga horária de trabalho, muito por eu não ter tempo de ficar em casa esperando-o despertar, muito por outros objetivos cegarem-me.
Na conclusão de que não posso reaver estes segundos junto à minha avó, cada vez mais tenho a certeza de que preciso fazer isso a meu filho, não posso mais postergar esta demonstração de afeto, antes que seja tarde e eu acabe acordando com suas cantorias e brincadeiras. O que me deixaria arrependido por não ter tido este tempo.
Dona Rosa, mesmo que indiretamente, atingia-me positivamente com sua bela cantoria, a ela deixo meu muito obrigado por ter feito a diferença nas minhas manhãs e na minha vida.
Com todo o estudo que tenho pela frente, seria motivo de orgulho se conseguisse passar a meu filho, que seja, a metade dos conceitos e ensinamentos que minha avó me transmitiu
Tendo frequentado apenas uma única sala de aula, a vida.

@JuniorDihl

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